sábado, 2 de novembro de 2024

O Passado

 

O Passado

Sandra Freire

O que seria de nós sem ele?

É ele que nos mantém vivos; comanda nossas emoções nos transportando ora pra onde queremos ir, ora toldando nossa alegria com algo tocante e triste; mas principalmente nos tirando de um presente onde estamos sem estar.

O burburinho do presente tenta nos manter nele, mas um breve silêncio, uma música, uma leitura, um odor, uma imagem, e tantas outras coisas, nos transportam ao que acabou, mas não passou.

O passado não se vai e o presente é nada até virar passado e merecer ser eternizado em lembranças.

Que perfeito seria poder construir o presente com as lembranças escolhidas no passado.

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

TECNOLOGIA

 

TECNOLOGIA

23/07/2017

 

A comunicação está também ao nosso desserviço. Enquanto a tecnologia cresce, o ser humano encolhe.  Tudo é descartável. Lembranças vão sendo gradativamente eliminadas em limpezas de armários; fotos, mensagens e outras preciosidades se perdem em computadores danificados .É a memória dele. E a nossa?

A primeira foto, no início do século XIX, ainda existe. Há 190 anos. De milhares que você tem tirado desde que o fotografar/deletar, disponível há menos de 20 anos nos celulares, quantas ainda estão guardadas? Já foi feita uma seleção? Quantos sentam ao computador para curtir momentos registrados virtualmente? Se a fotografia tivesse nascido digital, o que teria sido feito das lembranças de uma época em que só existiam pinturas, esculturas e desenhos como registro visual?

Estamos deixando de nos mover. O controle remoto nos mantém na cadeira. Até latas de lixo são abertas através de células fotoelétricas. Aparelhos desligam pelo do timer. Carros já há muito são controlados eletronicamente. Comandos são mais importantes que chaves.

Apagão?

Celulares programam com eficiência os nossos compromissos. E avisam. A memória não é mais requisitada para tarefas simples como registrar um número de telefone. Basta abrir um aplicativo que está tudo lá. Numa fração de segundo o Google fornece milhares de informações sobre o assunto pesquisado. Livros são “baixados” em aparelhos levíssimos. Dicionários são visualizados em um clique. Tudo pode ser esquecido em casa, menos eles, os eletrônicos.

As mesmas mãos que antes se acariciavam e entrelaçavam nas do parceiro, agora estão sempre ocupadas “neles”. Diálogos são substituídos por elementos de comunicação cada vez mais rápidos. Copiar e colar. Vc, Tb, Tc, Rs, KKKK, substituem a norma culta. O importante é saber ler. Escrever, não.

A comunicação ficou mais rápida e eficiente

Já não é mais necessário saber ortografia. É só colocar as primeiras letras e o resto da palavra aparece. Como? É preciso lembrar que “alguém” a pôs lá. Como será no futuro quando esses “alguéns” forem morrendo? É assustador imaginar que a ortografia ficará nas mãos daqueles que esperam que as palavras sejam completadas eletronicamente.

segunda-feira, 13 de março de 2023

PREÇO E VALOR

 

PREÇO E VALOR

Sandra Freire

Qual o valor do amor, se... . Talvez... . Quem sabe, contudo, porém, todavia...?

Qual o valor de uma joia sem uma embalagem glamorosa?

Qual o valor de um abraço, se não for apertado, dispensando palavras?

Qual o valor da amizade se for preciso esperar na fila comum?

Qual o valor de um olhar, se não transmitir a mensagem?

Qual o valor da felicidade, se não for divulgada?

Qual o valor da tristeza, se não estiver evidenciada?

Qual o valor das conquistas, se não se tornarem domínio público?

Qual seria o valor da vida sem a morte?

Só sei que, em relação ao valor, o preço é alto demais.


domingo, 14 de agosto de 2022

WRONG WAY

 

WRONG WAY

Caminho errado não conduz ao lugar certo.

Sandra Freire

A REDE QUE NOS PROTEGE

 Nesse mundo virtual, o que mais nos atrai é a fotogenia. Depois, vem a parte intelectual. Afinidades também são importantes, mas surgem no decorrer de o conhecimento. Com o passar de o tempo, por mais interessante que possa ser o processo de conhecimento, novas expectativas se configuram – é preciso passar do virtual ao real.

O virtual é o mundo da imaginação. O pensamento é livre. O perigo é permitir que o imaginário alcance proporções incompatíveis com o real. Será que alguém já foi sensato o suficiente para esperar menos e poder se surpreender com “mais”? Fica a dúvida.

A questão é que não dá pra ficar eternamente no virtual. Uma curtida não substitui o calor de um abraço, o prazer de uma companhia, uma pegada na mão...

Sentar na areia e pensar em alguém é bem poético. Estar com esse alguém, é mágico. Somando tudo, a carência afetiva ganha todas.

É muito bom entrar no mundo de os sonhos. Melhor ainda é estar só, sem sentir-se só. Nessa brincadeira de estar, sem efetivamente estar, o tempo vai passando agradavelmente à espera do pé que caiba no sapato de cristal.

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

 

REDES SOCIAIS OU CILADA

Sandra Freire

“É muito mais difícil matar um fantasma do que matar uma realidade”

                                                                                                        Virgínia Woolf

Conhecer alguém na rede. Começar uma amizade. Cair para o lado sentimental, sem nenhuma dose de realidade, só fotos, que vão direto ao imaginário. E, no imaginário é montada a alegoria – tudo que se empresta àquela foto nos agrada. Mensagens trocadas; músicas e vídeos compartilhados. A aura de romantismo é envolvente; aquele argumento passa a compartilhar nossas vidas e acaba soando como um compromisso assumido.

Nada mais incoerente.

Durante o processo não nos damos conta da cilada que representa essa mise en scene.

Afeiçoar-se a alguém impossibilita outras afeições. Emprestar qualidades a esse alguém faz com que se estabeleçam comparações com outro alguém. É o imaginário contra o real. Luta desigual.

A ubiquidade é negada aos humanos, portanto... Se estamos cá fisicamente e lá, sentimentalmente, onde nos sentimos afinal?

 Ah, Virgínia Wolf “A vida é como um sonho é o despertar que nos mata”.

 Mas queremos despertar.

A ÚLTIMA PEÇA

 

A ÚLTIMA PEÇA

Sandra Freire

 

Se fossemos um quebra-cabeça nossa montagem se daria ao longo de nossas vidas.  As primeiras peças começariam a se encaixar logo após o nascimento. Talvez a primeira fosse o choro, preconizando a dor que nos acompanharia até o final.

Mais do que apenas dor, o choro também traduz ansiedade, descontentamento, raiva, frustração, tristeza, felicidade - e sabe-se lá o quê mais.

As demais peças vão se acomodando ao longo de o tempo. É como se ao lado de cada peça tivesse um espaço para seu complemento. A eterna busca, para preencher os espaços vazios, acontece sem que nos apercebamos disso – são as exigências, as ilusões que acalentamos conscientemente, os sonhos, as esperanças e por aí vai...

O tempo ameniza a dor das ausências; a memória suaviza lembranças dolorosas.

 

sábado, 25 de junho de 2022

EXORCISMO

 

Sandra Freire

É preciso exorcizar nossos demônios ou eles continuarão no controle de nossas vidas. Experiências passadas devem ficar no passado. Quando terminamos de ler um livro, o fechamos e passamos ao seguinte. Por melhor que tenha sido a leitura, em algum momento, podemos nos surpreender com algo melhor ainda.

É fato que os demônios sejam resistentes. Estão em nós como se fossem indissociáveis; ditam regras; escolhem ou rejeitam outras pessoas; fazem comparações e ocupam um lugar que não lhes pertence mais.

Tentamos sufocar nossas carências preenchendo o tempo com mecanismos que só servem para nos distanciar de um convívio social - o que poderia ser bastante saudável. Já estamos atravessando um período de afastamento, que só facilita o equívoco nas escolhas (?) sentimentais. Daí aquela inquietude do eterno “Será que...” E, se não for?”.

E ainda nos surpreendemos com tantos desencontros. Já estamos esquecidos de que os encontros se davam num cruzamento de olhares, um sorriso e o indisfarçável constrangimento que delatava uma atração. Isso é insubstituível.

sábado, 11 de junho de 2022

ESQUECIMENTO

 

Sandra Freire

E, um belo dia eu lembro que esqueci.

Esqueci-me de buscar

Esqueci-me de olhar o quê não há

Esqueci-me de pensar

E de esperar

Esqueci-me de lembrar. E, me fez um grande bem ter esquecido de lembrar que era preciso esquecer.

E

Lembro-me de olhar à volta

Lembro o quanto é bom esquecer...

terça-feira, 10 de maio de 2022

 

AUSENCIA

Não é difícil conviver com uma ausência, mas é quase impossível viver sem ela.

Aquela pessoa que você não vê, mas sabe que existe, pode surgir a qualquer momento.

 É real.

 Talvez sua ausência seja mais benéfica do que sua presença, mas está em algum lugar.

A crueldade de a morte consiste em nos privar até de a ausência. É o nada.

 É a certeza de o nunca mais.

 É como se fossemos proibidos de sonhar.

 Pode-se sonhar com uma criação, com alguém distante, com alguém que se quer ter,

 mas não com alguém que se foi, porque não existe mais.

Quando se perde alguém importante, é preciso reaprender a viver. É preciso querer.

 Tudo e todos à volta perdem a importância. Como repor alguém?

 Qual o remédio para a dor de a perda? O tempo? E o que vai restar de nós após esse tempo?

 Quanto tempo?

A ferida vai fechar. Mas a cicatriz vai desaparecer?


terça-feira, 7 de dezembro de 2021

NADA MAIS BELO

 

NADA MAIS BELO

Que a experiência não vivida

Que a flor que não abriu

Que a música interrompida

Que a festa perdida

Que o lugar não visto

Que o sonho não realizado

Que o livro não escrito

Que as palavras não ditas

NADA MAIS TRISTE

Quando não há mais o que sonhar

Que o quê se foi logo ao chegar

Que a morte da flor logo após florescer

Que a musica não esquecida

Que a festa quando finda

Que o lugar que não existe mais

Que o livro em branco

Por não ter o quê ser escrito

A VIDA

 

A VIDA

Sandra Freire

É fato que a vida não tem mesmo imaginação. Ela se repete o tempo todo. Mais sem imaginação do que a vida são as pessoas. Isso, sim, é surpreendente. Mesmo quando acontece tudo igual, as pessoas esperam que o final seja diferente.

Como?

Se todos os ingredientes são para um bolo de laranja, o produto final será bolo de laranja!!!

Por que então esperar que seja torta de chocolate?

No fim, o X da questão é a vaidade de cada um. É o comigo vai ser diferente. São as juras de um com as lágrimas de outro. Quando ainda jovens, o filho do conserta casamento- tem tantos e há tanto que até já deram netos, bisnetos... -; os desejos de um realizados pelo outro (pecador). Com ou sem mais um filho, a tragédia se repete.

O homem é uma eterna criança. Está sempre em busca de liberdade. Quando pequeno tenta se libertar da mãe. Afasta-se dela com passos inseguros, corre, cai e volta correndo em busca de proteção. Quando adulto, substitui a mãe pela mulher, mas continua a eterna busca. Mas, se estamos condenados a ser livres (Sartre), por que não aprendemos ainda a lidar com a liberdade? Embora haja conflito entre liberdade e proteção – proteção significa sujeição, que é o oposto de liberdade –, por que o ser humano necessita dos dois?

Será nisso que os relacionamentos abertos apostam? Haverá liberdade com proteção; idas e vindas sem danos; coração que se divide e se restaura e...?

sábado, 24 de julho de 2021

 

MALDITA MATURIDADE

Sandra Freire e outros

“Aprendi que não importa o quanto eu me importe; algumas pessoas simplesmente não se importam”.

Aprendi que falar pode aliviar dores emocionais.

Que verdadeiras amizades continuam a crescer, mesmo a longas distâncias.

(...) e que vc pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida.

Aprendi que existem pessoas que amam a gente, mas simplesmente não sabem como demonstrar isso. Amar é fácil, mesmo quando não se quer; reconhecer, aceitar e demonstrar...

(...) que preciso controlar meus pensamentos, ou ser controlado por eles.

(...) que quando estou com raiva, tenho o direito de estar. Mas isto não me dá o direito de ser cruel.

Que quando duas pessoas discutem, não significa que elas se odeiem; e quando duas pessoas não discutem não significa que elas se amem.

Que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém; algumas vezes você tem que aprender a perdoar a si mesmo.

(...) beijos não são contratos e presentes não são promessas.

(...) que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança.

(...) que o tempo não é algo que possa voltar atrás.

Cada segundo é tempo para mudar tudo, para sempre.

(...) não importa em quantos pedaços seu coração foi partido; o mundo não vai parar para que você o conserte.

“Aprendi que por mais que eu queira proteger os meus filhos, eles vão se machucar e eu também”. Isso faz parte da vida.

“Aprendi que as circunstâncias de minha infância são responsáveis pelo que eu sou, mas não pelas escolhas que eu faço quando adulto.”

(...) que tenho de plantar meu jardim e decorar minh’alma, ao invés de esperar que alguém me traga flores.

As pessoas às vezes machucam as outras pelo simples fato de estarem machucadas.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

 

FELIZ ANO NOVO

Enquanto não atravessarmos na dor de nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades. Para viver a dois, antes, é necessário ser um. Fernando Pessoa

Sandra Freire
Quando tudo é perfeito, procuramos a falha. A perfeição incomoda. Algo como a roupa maravilhosa que não é confortável.

Notícia boa não prende ninguém na cadeira. Tragédia dá uma audiência estrondosa.

Ao final de cada ano, as reportagens pontuam mais os piores acontecimentos, como se quase nada de bom tivesse acontecido.

Manter a audiência é preciso.

Mas, porque não cultuamos os bons acontecimentos em nossas vidas? Não precisamos de audiência!

Ou?

O encontro de um novo amigo; o superar algo que não daria mesmo certo; ver à frente uma página em branco para escrever uma nova história. Ou nada!

Entender enfim, que deixar a página em branco, sem mágoas ou expectativas, pode significar o início de uma grande história.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

AMIGO OU CONHECIDO DE LONGA DATA



Sandra Freire
”NÃO PRECISAMOS TANTO DE AJUDA DE AMIGOS QUANTO DE A CERTEZA DE SUA AJUDA”

Qual a diferença? Abissal

Quando se está passando por um momento muito difícil
O conhecido tenta consolar com palavras vãs
O amigo abre o coração e a casa

Quando a dor é no corpo
O conhecido dá conselhos e demonstra dó
O amigo se oferece para dar o remédio e velar o seu sono

Quando a dor é na alma
O conhecido se esquiva com evasivas
O amigo oferece o ombro, o ouvido e chora junto

Quando se pensa não ter forças para continuar
O conhecido conta histórias de coragem
O amigo segura sua mão e dá a certeza de que você não está só

Quando todos os dias parecem cinzentos
O conhecido tem compromissos inadiáveis
O amigo adia os compromissos e lhe mostra o sol

Quando a cama parece o melhor lugar do mundo
O conhecido está sem tempo
O amigo abre as janelas e mostra o mundo lá fora

sexta-feira, 17 de abril de 2020

A DITADURA DA TECNOLOGIA



 Sandra Freire
Estamos sendo gradativamente escravizados pelos aparelhos eletrônicos. Estamos entregando nosso presente graciosamente. Estamos perdendo o uso de a escrita; o prazer de o encontro com amigos e parentes para trocar ideias. Estamos perdendo conquistas importantes feitas pela geração “Baby Boomers”. Tudo está se perdendo, com a nossa cumplicidade. O caminho percorrido está sendo caprichosamente apagado, ou deletado, para usar termos mais atuais. Aliás, o que será “atual” com a velocidade imposta à vida?

 O passado e os erros nele cometidos – povos apátridas vítimas de genocídio; as Guerras; o Holocausto; tentativa de extermínio de uma etnia por outra, no mesmo país, e outras barbaridades que têm ainda hoje sobreviventes. Não será esse “esquecimento” uma porta aberta a novos velhos acontecimentos? Não? O que está acontecendo neste momento no Afeganistão, Paquistão, Sudão, Myanmar...

Os Baby Boomers – geração nascida entre 1946 e 1964-, queimaram sutiãs, derrubaram preconceitos raciais, étnicos, religiosos etc, na doce ilusão de mais que liberdade, integração entre pessoas, sem barreiras de qualquer espécie. Surge aí uma mensagem que ficou gravada em nós por gerações, e hoje nada mais é do que uma linda utopia; Imagine, escrita e interpretada por John Lennon, no seu último LP. Aqueles que não souberem a quê me refiro, o Google satisfaz qualquer curiosidade em segundos.

 Deixe que sua memória continue morrendo em paz.

O prazer de um encontro casual; o calor de um abraço; o enlevo de um beijo; a segurança de as mãos dadas; o contemplar a natureza; o encantamento de uma poesia lida em conjunto e muito mais, estão confinadas no Imagine, somente para quem tem o quê lembrar.
Perder um celular é mais que perder um aparelho. Com ele se vão os contatos com outras pessoas, compromissos assumidos, agendas de telefone, endereços, amigos e nossas vidas. Ah, tem a nuvem! É fato. Podemos colocar nossa vida na “Nuvem” que ela jamais se perderá. Certeza? O que é mesmo “certeza”?

Estamos resumidos a números, o CPF e o CEP. Em qualquer estabelecimento comercial, confiável ou não, basta seu número para que sua privacidade seja invadida. Orwell e McLuhan – autores de 1984 e Teoria da Aldeia Global-, nos avisaram.

Estamos prefaciando a mais apavorante história de terror jamais escrita.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

COM OS JOVENS TENHO APRENDIDO



Que a vida não é curta
Antes, o tempo que nos resta quando enfim compreendemos
Que perdemos tanto tempo
Cultivando mágoas
Pensando em quem não vale a pena
Não tendo vivido romances
Que nos pareceram inadequados
Que é covardia culpar o(s) outro(s)
Por não termos feito o que queríamos

Que é sábio 
Colecionar momentos
Amigos
Fazer loucuras
Amores

A vida tem me ensinado
Que para exorcizar um grande amor
Só vivendo-o
Que só devemos fidelidade a nós mesmos
Que, se ainda assim
Não somos felizes
É preciso continuar aprendendo
Pois, fugir é um lugar que não existe

quinta-feira, 2 de abril de 2020

QUANDO O OUTRO SE VAI



Não é sem aviso. Nunca. Atitudes e olhares mal interpretados. Pistas ao vento.
A impaciência com fatos recorrentes, talvez seja a primeira pista a ser seguida. O “não sei” tem um tom diferente – carrega um quê de culpa e desejo de evitar o assunto. O cansaço travestido de exaustão; aquele olhar que vai muito além de você; um sono irresistível; mas o “tiro de misericórdia” é quando seus defeitos usuais são colocados no banco dos réus, julgados e condenados como crime hediondo. A culpa de tudo é SEMPRE do outro.

E, como explicar que o outro se sinta mesmo culpado? Que comece a buscar “aonde foi que eu errei?”. Mas pode piorar: É quando o acusado começa a encontrar seus “erros” e reconhecer que é preciso mudar. Aí começa a real agonia. Essa negativa em reconhecer a finitude de a relação entre dois seres é uma doença que evolui, fazendo definhar o respeito mútuo.

Ninguém tira o outro de alguém. Simplesmente perdem-se as pessoas. Bem, é nisso que dá considerar pessoas como propriedade. Embora pessoas não sejam nossas, podem estar em nós o tempo que quisermos pois “Saudade é solidão acompanhada/é quando o amor ainda não foi embora,/mas o amado já.../Saudade é amar um passado que ainda não passou, (...) /Saudade é sentir que existe o que não existe mais...(...)” Neruda

Uma vez alguém tenha entrado em nossa vida, partilhado bons momentos e tido um papel de inegável relevância, só sairá se quisermos. É muito parecido com o que fazemos com nossos entes queridos. Mesmo depois de mortos, continuam ocupando um lugar em nós. Lançamos mão de lembranças para manter vivo quem já morreu.
Por que não fazemos o mesmo com aqueles que simplesmente se afastaram?

 Lembranças podem ser escolhidas, realidade não.




sábado, 28 de março de 2020

CONFINAMENTO



É a ficção se tornando realidade. O inimaginável convivendo intimamente com cada um de nós. Temos tempo para tudo, mas nada podemos fazer.
Estamos diante de um dos momentos mais importantes de nossas vidas. Talvez, para a maioria, não surja outro igual. Talvez, a maioria nem se aperceba ainda o quanto de nosso interior está para emergir. São lembranças de tempos felizes, pessoas queridas, lugares que serão revisitados em fotos e ou memória.
Decisões importantes serão tomadas nesse período. Convivências serão analisadas e reavaliadas. Tantas decisões têm sido adiadas, simplesmente porque não temos noção de tempo. Temos adiado a convivência com amigos e familiares; uma pequena viagem; uma visita; um encontro para um café ou um passeio num parque.
Temos avaliado as pessoas pelo ter. Queremos ser amados por quem for inteligente, bem sucedido, bem vestido e frequente bons lugares.
O hedonismo tem feito parte de nossas vidas há tanto tempo que respostas imediatas são indispensáveis.
Afinal, não temos tempo!
Não?
Os restaurantes estão fechados, as lojas também. As salas de reunião estão vazias. As domésticas não podem vir; os banheiros precisam ser lavados, as roupas idem etc...
Somente agora poderemos avaliar o quê tem estado confinado em nós.
Quem sabe a importância que não temos dado a quem tem sido importante no nosso dia a dia; a presença invisível de os que fazem a nossa rotina possível; a não atenção ao carinho demonstrado pelos que parecem inferiores e mais e mais.
Até onde nossa seletiva memória permitirá que esse período seja lembrado como trágico e, ao mesmo tempo, revelador?


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

TECNOLOGIA


A comunicação está também ao nosso desserviço. Enquanto a tecnologia cresce, o ser humano encolhe.  Tudo é descartável. Lembranças vão sendo gradativamente eliminadas em limpezas de armários; fotos, mensagens e outras preciosidades se perdem em computadores danificados .É a memória dele. E a nossa?

A primeira foto, no início do século XIX, ainda existe. Há 190 anos. De milhares que você tem tirado desde que o fotografar/deletar, disponível há menos de 20 anos nos celulares, quantas ainda estão guardadas? Já foi feita uma seleção? Quantos sentam ao computador para curtir momentos registrados virtualmente? Se a fotografia tivesse nascido digital, o que teria sido feito das lembranças de uma época em que só existiam pinturas, esculturas e desenhos como registro visual?
Estamos deixando de nos mover. O controle remoto nos mantém na cadeira. Até latas de lixo são abertas através de células fotoelétricas. Aparelhos desligam pelo do timer. Carros já há muito são controlados eletronicamente. Comandos são mais importantes que chaves.

Apagão

Celulares programam com eficiência os nossos compromissos. E avisam. A memória não é mais requisitada para tarefas simples como registrar um número de telefone. Basta abrir um aplicativo que está tudo lá. Numa fração de segundo o Google fornece milhares de informações sobre o assunto pesquisado. Livros são “baixados” em aparelhos levíssimos. Dicionários são visualizados em um clique. Tudo pode ser esquecido em casa, menos eles, os eletrônicos.
As mesmas mãos que antes se acariciavam e entrelaçavam nas do parceiro, agora estão sempre ocupadas “neles”. Diálogos são substituídos por elementos de comunicação cada vez mais rápidos. Copiar e colar. Vc, Tb, Tc, Rs, KKKK, substituem a norma culta. O importante é saber ler. Escrever, não.

A comunicação ficou mais rápida e eficiente
Já não é mais necessário saber ortografia. É só colocar as primeiras letras e o resto da palavra aparece. Como? É preciso lembrar que “alguém” a pôs lá. Como será no futuro quando esses “alguéns” forem morrendo? É assustador imaginar que a ortografia ficará nas mãos daqueles que esperam que as palavras sejam completadas eletronicamente.

NÃO CAIA NA REDE


Sandra Freire
Viver em um mundo que não é o nosso pode ser complicado. Entendê-lo então! Aonde está o meu mundo? A paquera, as noites olhando para o telefone esperando que ele tocasse? Aquele olho-no-olho que transmitia um calor ao corpo inteiro. O silêncio que valia mais que mil palavras; a paradinha de fração de segundo dada pelo coração para comunicar “encontrei!”. E na rede? E no Face, especificamente? Nos sites de namoro?

Muito se tem tratado sobre os relacionamentos nas redes sociais. Para alguns filósofos, a rede aumentou a solidão dos que nela buscam parceiros sentimentais. A insatisfação de as relações, iniciadas virtualmente, se deve ao fato de que “falta algo” no outro. Mas também pode ser que sobre algo, tipo abundância de oferta, como mercadoria exposta – popular açougue. É a caça se oferecendo ao caçador.

Historicamente, a caçada sempre proporcionou uma emoção difícil de explicar. Caçadores de animais prendem a respiração para sentir o movimento, sutilíssimo, de a caça. A caça, ao pressentir o caçador, desprende um odor que faz com que a adrenalina cause no caçador um calor intenso, mesmo em temperaturas negativas. São emoções intensas – na caça, com a proximidade da morte; no caçador, de a captura.

 Que foi feito de o frisson que um único e certeiro tiro proporcionava?
O caçador está se sentindo ameaçado. O ser preconceituoso, que habita no macho da espécie, é tão primitivo em suas reações que sequer as submete à luz da razão. Tudo mudou. Mesmo seu comportamento tendo se adaptado a este mundo líquido, onde nada dura, onde tudo escorre e se transforma - como descreve de forma inquietante o sociólogo Z. Bauman-, a sensação de insatisfação é constante.

Para simples observadores, desde os mais vividos até os menos experientes, o sucesso de os relacionamentos está mais propenso a uma determinada faixa etária, jovem, cuca fresca, sem grandes pretensões e com tempo suficiente para ir levando... Segundo o filósofo Pondé, até os 20 anos, o internauta não tem o foco específico no encontro de outro; já o enfoque de o internauta de faixa etária mais alta tende à perversidade. Pior, quanto maior a faixa etária do internauta, isso só se exacerba. É nessa faixa que se encontram as maiores perversões na rede.

A emoção do encontro é inesperada. A busca, infrutífera. Ele, o encontro, está de tocaia, em algum lugar, e lhe encontrará, porque não quer ser achado. Se, é fato que a realidade precede a ficção, já não há dúvidas de a fonte de inspiração de tantos romances que, que há séculos, encantam mentes sonhadoras, seja a vida, pura e simplesmente a vida.

Segundo a teoria existencialista de Sartre, somos obrigados a ser livres, (...) Assim sendo, nada pode determinar as decisões que tomamos, e tudo o que acontece em nossa vida é proveniente do passado e das escolhas que fizemos nele.