segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

NÃO CAIA NA REDE


Sandra Freire
Viver em um mundo que não é o nosso pode ser complicado. Entendê-lo então! Aonde está o meu mundo? A paquera, as noites olhando para o telefone esperando que ele tocasse? Aquele olho-no-olho que transmitia um calor ao corpo inteiro. O silêncio que valia mais que mil palavras; a paradinha de fração de segundo dada pelo coração para comunicar “encontrei!”. E na rede? E no Face, especificamente? Nos sites de namoro?

Muito se tem tratado sobre os relacionamentos nas redes sociais. Para alguns filósofos, a rede aumentou a solidão dos que nela buscam parceiros sentimentais. A insatisfação de as relações, iniciadas virtualmente, se deve ao fato de que “falta algo” no outro. Mas também pode ser que sobre algo, tipo abundância de oferta, como mercadoria exposta – popular açougue. É a caça se oferecendo ao caçador.

Historicamente, a caçada sempre proporcionou uma emoção difícil de explicar. Caçadores de animais prendem a respiração para sentir o movimento, sutilíssimo, de a caça. A caça, ao pressentir o caçador, desprende um odor que faz com que a adrenalina cause no caçador um calor intenso, mesmo em temperaturas negativas. São emoções intensas – na caça, com a proximidade da morte; no caçador, de a captura.

 Que foi feito de o frisson que um único e certeiro tiro proporcionava?
O caçador está se sentindo ameaçado. O ser preconceituoso, que habita no macho da espécie, é tão primitivo em suas reações que sequer as submete à luz da razão. Tudo mudou. Mesmo seu comportamento tendo se adaptado a este mundo líquido, onde nada dura, onde tudo escorre e se transforma - como descreve de forma inquietante o sociólogo Z. Bauman-, a sensação de insatisfação é constante.

Para simples observadores, desde os mais vividos até os menos experientes, o sucesso de os relacionamentos está mais propenso a uma determinada faixa etária, jovem, cuca fresca, sem grandes pretensões e com tempo suficiente para ir levando... Segundo o filósofo Pondé, até os 20 anos, o internauta não tem o foco específico no encontro de outro; já o enfoque de o internauta de faixa etária mais alta tende à perversidade. Pior, quanto maior a faixa etária do internauta, isso só se exacerba. É nessa faixa que se encontram as maiores perversões na rede.

A emoção do encontro é inesperada. A busca, infrutífera. Ele, o encontro, está de tocaia, em algum lugar, e lhe encontrará, porque não quer ser achado. Se, é fato que a realidade precede a ficção, já não há dúvidas de a fonte de inspiração de tantos romances que, que há séculos, encantam mentes sonhadoras, seja a vida, pura e simplesmente a vida.

Segundo a teoria existencialista de Sartre, somos obrigados a ser livres, (...) Assim sendo, nada pode determinar as decisões que tomamos, e tudo o que acontece em nossa vida é proveniente do passado e das escolhas que fizemos nele.

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