quarta-feira, 22 de julho de 2015

GERAÇÕES

Imagem do Google
Publicado no JG- Jornal de Gramado em 03/07/2015

“Vista pelos jovens, a vida é um futuro infinitamente longo; vista pelos velhos, um passado muito breve.”
                                  Arthur Schopenhauer 

                                            






Sandra Freire
A conexão entre as gerações nunca foi um lago de águas plácidas. Apesar de as lembranças remotas serem as mais fiéis em nossa memória, a tendência é considerar os fatos atuais mais contundentes. Algo parecido com a dor. A que passou é sempre mais branda do que a atual. As gerações vão se sucedendo como as imagens num espelho. Enquanto nos vamos afastando dele, -e ficando cada vez menores- nossos filhos vão se aproximando e ficando maiores.

A grande diferença é que, antes éramos os protagonistas e agora, coadjuvantes.

Nós, protagonistas, nossos pais, coadjuvantes. Na pré-adolescência, portas trancadas, segredos trocados com os amigos, sensações estranhas, descobertas. Curiosidade.
Na adolescência e início da fase adulta, “descobrimos” que sabemos muito mais do que nossos pais. O tempo deles não estava com nada. Nem dá para discutir!

Nós adultos, eles velhinhos. Temos de estar atentos senão... Fazem bobagens, é claro. Assumem compromissos que não poderão cumprir, pagam mais pelo que não vale, vão a lugares que podem ser perigosos, fazem amizade com pessoas que não têm referências e nem sabem se são confiáveis. Preocupam-se muito com os filhos, mas não percebem o quanto são frágeis.

Nosso(s) filhos(s) chegando. Seres indefesos. Precisam de assistência o tempo todo. Não sobreviveriam sem nós. É de nossa responsabilidade prover uma infância saudável, carinho, compreensão, companheirismo etc. Quando pequenos, somos o modelo ideal. Querem ser iguais a nós, seus heróis.

Na adolescência, ficam um tanto distantes de nós.  As confidências vão rareando. Preferem mais a companhia dos amigos do que a nossa. Nossos gostos vão se distanciando, mesmo que nos esforcemos por partilhar seus filmes, músicas etc.

Agora, adultos, têm seus próprios interesses. Sua programação não nos inclui. Vigiam-nos veladamente, como se não percebêssemos.

Aí, chegam os netos, filhos de nossos filhos... e a história, mais uma vez, se repete.

Segundo o psiquiatra Flavio Gikovate, o adolescente e o velho passam por um problema bastante semelhante. Os adolescentes, com o desenvolvimento do corpo que não é acompanhado pela cabeça, que permanece infantil mais tempo. O velho, que mantém a cabeça jovem enquanto o corpo envelhece. É comum se ouvir “Não me sinto com a idade que tenho”. Não sente, mas vê.

 Os dois têm razões mais do que suficientes para sofrer.

É fato que, quando o jovem alcançar a idade dos pais vai entender bem o que eles estão passando agora.

Acontece que seus filhos só os entenderão quando chegarem à idade deles agora.


Apesar de ser previsível, pois se repete, repete e repete, o final é sempre surpreendente para os atores. Quando o filme termina, as luzes se acendem. Mas logo se apagam e começa uma nova seção.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

FELICIDADE

Publicado no JG-Jornal de Gramado em 23/06/2015

“Não espere por uma crise para descobrir o que é importante em sua vida.”
                                                                                                           Platão

Sandra Freire
Para ser feliz, basta saber coletar corretamente as gotas de felicidade que a vida, diariamente, nos dá. A noção de felicidade talvez seja equivocada, pois só a reconhecemos quando traz em si a promessa de ser eterna, mesmo quando sabemos que talvez não o seja. O que vem aos poucos, entremeado com coisas outras, que nem sempre são boas, costuma passar despercebido. As pequenas “felicidades”, não vêm de traje à rigor.

É comum sentir-se feliz com a realização de um desejo, como um carro novo, uma viagem, um trabalho gratificante e bem gratificado. Poder cuidar bem de si mesmo. Olhar no espelho e ver uma imagem que agrada a si e aos demais. . Não se considera felicidade estar apto a comer sozinho e poder ouvir o barulho da chuva.

Não é comum sentir-se feliz em poder caminhar, pegar o ônibus, ter um trabalho que permita viver com simplicidade e ser saudável a ponto de poder lutar por alcançar meios de realizar os próprios sonhos.

 É fácil ser feliz quando nasce um filho desejado. Difícil, é ser feliz quando ele não corresponde às expectativas que foram postas nele. Queremos um filho para realizar “nossos” desejos. Não somos felizes quando ele (a) realiza seus próprios desejos, quando conflitantes com os nossos.

Geralmente reconhecemos a infelicidade na perda de um ente querido. Só não nos damos conta de que, tê-lo tido não nos fez tão felizes, quanto a sua perda, infelizes. Bastava saber que o ente estava por ali, que ainda vivia. Aquela existência não nos enchia de felicidade. Mas, por que a ausência nos enche de infelicidade? Quem sabe, somos mais felizes na infelicidade? Vê-se a tristeza na face de alguém, mas não se vê alegria com a mesma frequência. Quando não denotamos tristeza, nem alegria, denotamos o quê?

Só experimentamos a alegria num silêncio, quando ele sucede um barulho insuportável. Só damos o devido valor a alguma coisa, por mais simples que seja, quando ela nos falta. Para Platão, não se pode desejar aquilo que já se possui. A falta, desejo ou perda, traz consigo certo alvoroço. A posse, mesmo de algo importante, lentamente vai caindo na indiferença. Dito já bastante conhecido “O desejo é tudo, a posse é nada”.

Quando se organiza uma viagem, o projeto, quanto mais demorado, mais prazeroso. Chegamos a nos imaginar nos lugares a serem visitados. Fazemos um verdadeiro enxoval, muitas vezes, sem refletir que se pode adquirir muito do que necessitamos, durante o percurso. A mala de ida, não raro, vai cheia do que voltará sem uso. Durante a viagem, imprevistos podem ocorrer. Alguns facilmente contornáveis e outros, nem sempre. Nada disso importa, pois na volta, só as coisas boas são contabilizadas. As ruins tendem a ser amenizadas.


A felicidade está num passado relembrado. Num futuro planejado. Nunca no presente sem glamour.