sábado, 2 de novembro de 2024

O Passado

 

O Passado

Sandra Freire

O que seria de nós sem ele?

É ele que nos mantém vivos; comanda nossas emoções nos transportando ora pra onde queremos ir, ora toldando nossa alegria com algo tocante e triste; mas principalmente nos tirando de um presente onde estamos sem estar.

O burburinho do presente tenta nos manter nele, mas um breve silêncio, uma música, uma leitura, um odor, uma imagem, e tantas outras coisas, nos transportam ao que acabou, mas não passou.

O passado não se vai e o presente é nada até virar passado e merecer ser eternizado em lembranças.

Que perfeito seria poder construir o presente com as lembranças escolhidas no passado.

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

TECNOLOGIA

 

TECNOLOGIA

23/07/2017

 

A comunicação está também ao nosso desserviço. Enquanto a tecnologia cresce, o ser humano encolhe.  Tudo é descartável. Lembranças vão sendo gradativamente eliminadas em limpezas de armários; fotos, mensagens e outras preciosidades se perdem em computadores danificados .É a memória dele. E a nossa?

A primeira foto, no início do século XIX, ainda existe. Há 190 anos. De milhares que você tem tirado desde que o fotografar/deletar, disponível há menos de 20 anos nos celulares, quantas ainda estão guardadas? Já foi feita uma seleção? Quantos sentam ao computador para curtir momentos registrados virtualmente? Se a fotografia tivesse nascido digital, o que teria sido feito das lembranças de uma época em que só existiam pinturas, esculturas e desenhos como registro visual?

Estamos deixando de nos mover. O controle remoto nos mantém na cadeira. Até latas de lixo são abertas através de células fotoelétricas. Aparelhos desligam pelo do timer. Carros já há muito são controlados eletronicamente. Comandos são mais importantes que chaves.

Apagão?

Celulares programam com eficiência os nossos compromissos. E avisam. A memória não é mais requisitada para tarefas simples como registrar um número de telefone. Basta abrir um aplicativo que está tudo lá. Numa fração de segundo o Google fornece milhares de informações sobre o assunto pesquisado. Livros são “baixados” em aparelhos levíssimos. Dicionários são visualizados em um clique. Tudo pode ser esquecido em casa, menos eles, os eletrônicos.

As mesmas mãos que antes se acariciavam e entrelaçavam nas do parceiro, agora estão sempre ocupadas “neles”. Diálogos são substituídos por elementos de comunicação cada vez mais rápidos. Copiar e colar. Vc, Tb, Tc, Rs, KKKK, substituem a norma culta. O importante é saber ler. Escrever, não.

A comunicação ficou mais rápida e eficiente

Já não é mais necessário saber ortografia. É só colocar as primeiras letras e o resto da palavra aparece. Como? É preciso lembrar que “alguém” a pôs lá. Como será no futuro quando esses “alguéns” forem morrendo? É assustador imaginar que a ortografia ficará nas mãos daqueles que esperam que as palavras sejam completadas eletronicamente.

segunda-feira, 13 de março de 2023

PREÇO E VALOR

 

PREÇO E VALOR

Sandra Freire

Qual o valor do amor, se... . Talvez... . Quem sabe, contudo, porém, todavia...?

Qual o valor de uma joia sem uma embalagem glamorosa?

Qual o valor de um abraço, se não for apertado, dispensando palavras?

Qual o valor da amizade se for preciso esperar na fila comum?

Qual o valor de um olhar, se não transmitir a mensagem?

Qual o valor da felicidade, se não for divulgada?

Qual o valor da tristeza, se não estiver evidenciada?

Qual o valor das conquistas, se não se tornarem domínio público?

Qual seria o valor da vida sem a morte?

Só sei que, em relação ao valor, o preço é alto demais.


domingo, 14 de agosto de 2022

WRONG WAY

 

WRONG WAY

Caminho errado não conduz ao lugar certo.

Sandra Freire

A REDE QUE NOS PROTEGE

 Nesse mundo virtual, o que mais nos atrai é a fotogenia. Depois, vem a parte intelectual. Afinidades também são importantes, mas surgem no decorrer de o conhecimento. Com o passar de o tempo, por mais interessante que possa ser o processo de conhecimento, novas expectativas se configuram – é preciso passar do virtual ao real.

O virtual é o mundo da imaginação. O pensamento é livre. O perigo é permitir que o imaginário alcance proporções incompatíveis com o real. Será que alguém já foi sensato o suficiente para esperar menos e poder se surpreender com “mais”? Fica a dúvida.

A questão é que não dá pra ficar eternamente no virtual. Uma curtida não substitui o calor de um abraço, o prazer de uma companhia, uma pegada na mão...

Sentar na areia e pensar em alguém é bem poético. Estar com esse alguém, é mágico. Somando tudo, a carência afetiva ganha todas.

É muito bom entrar no mundo de os sonhos. Melhor ainda é estar só, sem sentir-se só. Nessa brincadeira de estar, sem efetivamente estar, o tempo vai passando agradavelmente à espera do pé que caiba no sapato de cristal.

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

 

REDES SOCIAIS OU CILADA

Sandra Freire

“É muito mais difícil matar um fantasma do que matar uma realidade”

                                                                                                        Virgínia Woolf

Conhecer alguém na rede. Começar uma amizade. Cair para o lado sentimental, sem nenhuma dose de realidade, só fotos, que vão direto ao imaginário. E, no imaginário é montada a alegoria – tudo que se empresta àquela foto nos agrada. Mensagens trocadas; músicas e vídeos compartilhados. A aura de romantismo é envolvente; aquele argumento passa a compartilhar nossas vidas e acaba soando como um compromisso assumido.

Nada mais incoerente.

Durante o processo não nos damos conta da cilada que representa essa mise en scene.

Afeiçoar-se a alguém impossibilita outras afeições. Emprestar qualidades a esse alguém faz com que se estabeleçam comparações com outro alguém. É o imaginário contra o real. Luta desigual.

A ubiquidade é negada aos humanos, portanto... Se estamos cá fisicamente e lá, sentimentalmente, onde nos sentimos afinal?

 Ah, Virgínia Wolf “A vida é como um sonho é o despertar que nos mata”.

 Mas queremos despertar.

A ÚLTIMA PEÇA

 

A ÚLTIMA PEÇA

Sandra Freire

 

Se fossemos um quebra-cabeça nossa montagem se daria ao longo de nossas vidas.  As primeiras peças começariam a se encaixar logo após o nascimento. Talvez a primeira fosse o choro, preconizando a dor que nos acompanharia até o final.

Mais do que apenas dor, o choro também traduz ansiedade, descontentamento, raiva, frustração, tristeza, felicidade - e sabe-se lá o quê mais.

As demais peças vão se acomodando ao longo de o tempo. É como se ao lado de cada peça tivesse um espaço para seu complemento. A eterna busca, para preencher os espaços vazios, acontece sem que nos apercebamos disso – são as exigências, as ilusões que acalentamos conscientemente, os sonhos, as esperanças e por aí vai...

O tempo ameniza a dor das ausências; a memória suaviza lembranças dolorosas.

 

sábado, 25 de junho de 2022

EXORCISMO

 

Sandra Freire

É preciso exorcizar nossos demônios ou eles continuarão no controle de nossas vidas. Experiências passadas devem ficar no passado. Quando terminamos de ler um livro, o fechamos e passamos ao seguinte. Por melhor que tenha sido a leitura, em algum momento, podemos nos surpreender com algo melhor ainda.

É fato que os demônios sejam resistentes. Estão em nós como se fossem indissociáveis; ditam regras; escolhem ou rejeitam outras pessoas; fazem comparações e ocupam um lugar que não lhes pertence mais.

Tentamos sufocar nossas carências preenchendo o tempo com mecanismos que só servem para nos distanciar de um convívio social - o que poderia ser bastante saudável. Já estamos atravessando um período de afastamento, que só facilita o equívoco nas escolhas (?) sentimentais. Daí aquela inquietude do eterno “Será que...” E, se não for?”.

E ainda nos surpreendemos com tantos desencontros. Já estamos esquecidos de que os encontros se davam num cruzamento de olhares, um sorriso e o indisfarçável constrangimento que delatava uma atração. Isso é insubstituível.