segunda-feira, 8 de agosto de 2022

 

REDES SOCIAIS OU CILADA

Sandra Freire

“É muito mais difícil matar um fantasma do que matar uma realidade”

                                                                                                        Virgínia Woolf

Conhecer alguém na rede. Começar uma amizade. Cair para o lado sentimental, sem nenhuma dose de realidade, só fotos, que vão direto ao imaginário. E, no imaginário é montada a alegoria – tudo que se empresta àquela foto nos agrada. Mensagens trocadas; músicas e vídeos compartilhados. A aura de romantismo é envolvente; aquele argumento passa a compartilhar nossas vidas e acaba soando como um compromisso assumido.

Nada mais incoerente.

Durante o processo não nos damos conta da cilada que representa essa mise en scene.

Afeiçoar-se a alguém impossibilita outras afeições. Emprestar qualidades a esse alguém faz com que se estabeleçam comparações com outro alguém. É o imaginário contra o real. Luta desigual.

A ubiquidade é negada aos humanos, portanto... Se estamos cá fisicamente e lá, sentimentalmente, onde nos sentimos afinal?

 Ah, Virgínia Wolf “A vida é como um sonho é o despertar que nos mata”.

 Mas queremos despertar.

A ÚLTIMA PEÇA

 

A ÚLTIMA PEÇA

Sandra Freire

 

Se fossemos um quebra-cabeça nossa montagem se daria ao longo de nossas vidas.  As primeiras peças começariam a se encaixar logo após o nascimento. Talvez a primeira fosse o choro, preconizando a dor que nos acompanharia até o final.

Mais do que apenas dor, o choro também traduz ansiedade, descontentamento, raiva, frustração, tristeza, felicidade - e sabe-se lá o quê mais.

As demais peças vão se acomodando ao longo de o tempo. É como se ao lado de cada peça tivesse um espaço para seu complemento. A eterna busca, para preencher os espaços vazios, acontece sem que nos apercebamos disso – são as exigências, as ilusões que acalentamos conscientemente, os sonhos, as esperanças e por aí vai...

O tempo ameniza a dor das ausências; a memória suaviza lembranças dolorosas.

 

sábado, 25 de junho de 2022

EXORCISMO

 

Sandra Freire

É preciso exorcizar nossos demônios ou eles continuarão no controle de nossas vidas. Experiências passadas devem ficar no passado. Quando terminamos de ler um livro, o fechamos e passamos ao seguinte. Por melhor que tenha sido a leitura, em algum momento, podemos nos surpreender com algo melhor ainda.

É fato que os demônios sejam resistentes. Estão em nós como se fossem indissociáveis; ditam regras; escolhem ou rejeitam outras pessoas; fazem comparações e ocupam um lugar que não lhes pertence mais.

Tentamos sufocar nossas carências preenchendo o tempo com mecanismos que só servem para nos distanciar de um convívio social - o que poderia ser bastante saudável. Já estamos atravessando um período de afastamento, que só facilita o equívoco nas escolhas (?) sentimentais. Daí aquela inquietude do eterno “Será que...” E, se não for?”.

E ainda nos surpreendemos com tantos desencontros. Já estamos esquecidos de que os encontros se davam num cruzamento de olhares, um sorriso e o indisfarçável constrangimento que delatava uma atração. Isso é insubstituível.

sábado, 11 de junho de 2022

ESQUECIMENTO

 

Sandra Freire

E, um belo dia eu lembro que esqueci.

Esqueci-me de buscar

Esqueci-me de olhar o quê não há

Esqueci-me de pensar

E de esperar

Esqueci-me de lembrar. E, me fez um grande bem ter esquecido de lembrar que era preciso esquecer.

E

Lembro-me de olhar à volta

Lembro o quanto é bom esquecer...

terça-feira, 10 de maio de 2022

 

AUSENCIA

Não é difícil conviver com uma ausência, mas é quase impossível viver sem ela.

Aquela pessoa que você não vê, mas sabe que existe, pode surgir a qualquer momento.

 É real.

 Talvez sua ausência seja mais benéfica do que sua presença, mas está em algum lugar.

A crueldade de a morte consiste em nos privar até de a ausência. É o nada.

 É a certeza de o nunca mais.

 É como se fossemos proibidos de sonhar.

 Pode-se sonhar com uma criação, com alguém distante, com alguém que se quer ter,

 mas não com alguém que se foi, porque não existe mais.

Quando se perde alguém importante, é preciso reaprender a viver. É preciso querer.

 Tudo e todos à volta perdem a importância. Como repor alguém?

 Qual o remédio para a dor de a perda? O tempo? E o que vai restar de nós após esse tempo?

 Quanto tempo?

A ferida vai fechar. Mas a cicatriz vai desaparecer?


terça-feira, 7 de dezembro de 2021

NADA MAIS BELO

 

NADA MAIS BELO

Que a experiência não vivida

Que a flor que não abriu

Que a música interrompida

Que a festa perdida

Que o lugar não visto

Que o sonho não realizado

Que o livro não escrito

Que as palavras não ditas

NADA MAIS TRISTE

Quando não há mais o que sonhar

Que o quê se foi logo ao chegar

Que a morte da flor logo após florescer

Que a musica não esquecida

Que a festa quando finda

Que o lugar que não existe mais

Que o livro em branco

Por não ter o quê ser escrito

A VIDA

 

A VIDA

Sandra Freire

É fato que a vida não tem mesmo imaginação. Ela se repete o tempo todo. Mais sem imaginação do que a vida são as pessoas. Isso, sim, é surpreendente. Mesmo quando acontece tudo igual, as pessoas esperam que o final seja diferente.

Como?

Se todos os ingredientes são para um bolo de laranja, o produto final será bolo de laranja!!!

Por que então esperar que seja torta de chocolate?

No fim, o X da questão é a vaidade de cada um. É o comigo vai ser diferente. São as juras de um com as lágrimas de outro. Quando ainda jovens, o filho do conserta casamento- tem tantos e há tanto que até já deram netos, bisnetos... -; os desejos de um realizados pelo outro (pecador). Com ou sem mais um filho, a tragédia se repete.

O homem é uma eterna criança. Está sempre em busca de liberdade. Quando pequeno tenta se libertar da mãe. Afasta-se dela com passos inseguros, corre, cai e volta correndo em busca de proteção. Quando adulto, substitui a mãe pela mulher, mas continua a eterna busca. Mas, se estamos condenados a ser livres (Sartre), por que não aprendemos ainda a lidar com a liberdade? Embora haja conflito entre liberdade e proteção – proteção significa sujeição, que é o oposto de liberdade –, por que o ser humano necessita dos dois?

Será nisso que os relacionamentos abertos apostam? Haverá liberdade com proteção; idas e vindas sem danos; coração que se divide e se restaura e...?