“O tempo não para! Só a saudade é que faz as coisas
pararem no tempo...”.
Mario Quintana
Sandra Freire
De
um tempo em que as portas das casas podiam ficar abertas. Os bairros abrigavam
amigos como se fosse uma única família. As ruas tinham casas, árvores,
crianças, bicicletas e alguns carros. Os coletivos eram os bondes e lotações. Só
os filmes de terror causavam
pesadelos. Gente não tinha medo de gente.
Os cotovelos nas janelas
apoiavam a alegria tranquila de uma paz que era natural. Sem alardes. O cheiro
de café fresco, passado no coador de pano, atraía o vizinho que despertava da
sesta para a segunda parte da jornada de trabalho – a primeira terminava com o
almoço em casa. Vez por outra, passava uma condução. No fim da tarde o retorno
do trabalho, sem alarido, sempre à mesma hora, a tempo para o jantar.
Nos dias de verão, para
fazer a digestão, as mocinhas passeavam pela calçada, os rapazes papeavam nas
esquinas, as “titias” batiam as pestanas nas janelas. As vizinhas saíam aos
portões para conversar. Os senhores, já de pijama, também participavam.
Triste era não ter
namorado. Um ser amado ficar doente ou morrer. Alguém querido ir para longe.
Mas a alegria de um casamento, nascimento, baile de formatura, festa junina com
toda a vizinhança, conseguia afastar a tristeza.
Os bailes de formatura
eram puro glamour. Preenchiam grande
parte dos meses que os precediam com os preparativos. A expectativa do evento
fazia sonharem acordadas as que traziam no coração o desejo de conhecer seu
par. Vestidos longos, rapazes de Summer, orquestra tocando músicas de fazer
delirar. Bilhetinhos eram entregues por mãos suadas e guardados dentro de
romances.
O que restou desse tempo
já foi tachado de quinquilharia, entulho, antiguidade. Mais recentemente,
vintage. As peças não mudaram, continuam guardando lembranças de um tempo que
embalou desejos, sonhos, segredos, alegrias e tristezas, como hoje! A embalagem
é nova, o conteúdo, reciclado. A matéria-prima, a mesma.
Nomes ainda são escritos
sangrando a casca de árvores. O mar continua levando declarações de amor e
corações desenhados na areia. Olhos jovens e brilhantes decoram feições que
serão revistas na memória quando a bruma dos anos e da saudade lhes embaçar a
visão. A tralha – para os jovens de então – deverá ser guardada com zelo para
manter vivo o que já terá ido. Como hoje.
Há um momento que une a
todos, o som dos Beatles. Velhos se tornam jovens e jovens esquecem que eles –
os Beatles –, se lhes assemelhavam quando começaram e continuam a encantar após
56 anos de existência.



