Publicado no JG Jornal de Gramado em 5/1/2016
“É proibido (...)
não compreender que o que a vida te dá, também te tira.”
Pablo Neruda
Sandra
Freire
O início da festa recebe jovens alegres, barulhentos, coloridos. À
medida que avança, após alguns drinques, ela chega ao auge. A música alta abafa
as conversas. A pista se enche de pessoas que se movimentam no desejo de
eternizar aquele momento. Com o passar do tempo, o som vai baixando. O ritmo de
balada vai sendo substituído pelo de ícones da geração anterior. As saias
vão-se encompridando, as alcinhas desenrolam-se em pequenas mangas. Os jeans e
camisetas informais dão lugar às calças e camisas sociais. O entusiasmo cede ao
cansaço. Começam as despedidas.
Quando os convivas começam a
chegar, trazem junto seus diários ainda vazios. Nos sorrisos que completam a
indumentária, a esperança de que a festa seja pura alegria para se transformar
num relato prazeroso de ser lido e relido. Um início de festa tem o brilho de o
imaculado, o frescor de flores recém-cortadas e a expectativa de um grande
evento.
A música ensurdecedora lhes
basta. Seus sentidos, – ainda pouco exigentes - satisfeitos com o som e o
toque. As lembranças, quase inexistentes, não dão margens aos diálogos sempre
alimentados por opiniões conflitantes, formadas somente quando a estrada da
vida começa a ser percorrida. Estrada essa ainda virgem.
O suor nos corpos rijos, leva
consigo a efervescência do início da festa e começa a esfriar. A agitação vai
se transformando em calmaria. Cadeiras são usadas e diálogos travados com base
nas experiências adquiridas desde a chegada. Aos poucos, uma luz mais intensa
vai deixando a penumbra para trás e mostra os jovens, já não tão jovens. O tom
das conversas é bem diferente daquele do início. O pronome de tratamento
também. O Sr. (a) vem fazer parte da cena. Quando alguém, cuja juventude está
na sombra às suas costas, chama o outro de senhor (a) é uma tentativa de
parecer menos velho do que ele - como se a fantasia coubesse em apenas um dos
presentes.
Um tom mais sério toma conta do
ambiente. Cenhos marcados, - que antes eram lisos - deixam transparecer o tempo
passado desde então. Pintas e sulcos vão surgindo nos corpos antes frescos e de
uma só cor. Seus olhos traem o cansaço, as alegrias, perdas, tristezas e
esperanças mostrados nas já aparentes rugas de expressão. Expressão essa,
intraduzível.
No correr da festa, muitos se
vão. Alguns de despedem. Outros, nem tiveram tempo para tal. A sala vai se
esvaziando. Objetos, palavras, insinuações, olhares, cheiros, saudades ficam no
ar.
Quando o último convidado se vai,
fecham-se portas e janelas, numa tentativa de impedir que com ele se vá tudo que
ali foi vivido. Terá sido a festa curta ou longa demais? Cora Coralina tem a
resposta:
NÃO SEI
“... Mas sei
que nada do que vivemos tem sentido
Se não
tocarmos o coração das pessoas
... Feliz
daquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”
Um comentário:
👏👏👏 Sandra, muito boa!!!!
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