Publicado no JG-Jornal de Gramado em 23/06/2015
“Não espere por uma crise para descobrir o que é importante
em sua vida.”
Platão
Sandra Freire
Para ser feliz, basta
saber coletar corretamente as gotas de felicidade que a vida, diariamente, nos
dá. A noção de felicidade talvez seja equivocada, pois só a reconhecemos quando
traz em si a promessa de ser eterna, mesmo quando sabemos que talvez não o seja.
O que vem aos poucos, entremeado com coisas outras, que nem sempre são boas, costuma
passar despercebido. As pequenas “felicidades”, não vêm de traje à rigor.
É comum sentir-se feliz com a realização de um desejo, como
um carro novo, uma viagem, um trabalho gratificante e bem gratificado. Poder
cuidar bem de si mesmo. Olhar no espelho e ver uma imagem que agrada a si e aos
demais. . Não se considera felicidade estar apto a comer sozinho e poder ouvir
o barulho da chuva.
Não é comum sentir-se feliz em poder caminhar, pegar o
ônibus, ter um trabalho que permita viver com simplicidade e ser saudável a
ponto de poder lutar por alcançar meios de realizar os próprios sonhos.
É fácil ser feliz
quando nasce um filho desejado. Difícil, é ser feliz quando ele não corresponde
às expectativas que foram postas nele. Queremos um filho para realizar “nossos”
desejos. Não somos felizes quando ele (a) realiza seus próprios desejos, quando
conflitantes com os nossos.
Geralmente reconhecemos a infelicidade na perda de um ente
querido. Só não nos damos conta de que, tê-lo tido não nos fez tão felizes,
quanto a sua perda, infelizes. Bastava saber que o ente estava por ali, que
ainda vivia. Aquela existência não nos enchia de felicidade. Mas, por que a
ausência nos enche de infelicidade? Quem sabe, somos mais felizes na
infelicidade? Vê-se a tristeza na face de alguém, mas não se vê alegria com a
mesma frequência. Quando não denotamos tristeza, nem alegria, denotamos o quê?
Só experimentamos a alegria num silêncio, quando ele sucede
um barulho insuportável. Só damos o devido valor a alguma coisa, por mais
simples que seja, quando ela nos falta. Para Platão, não se pode desejar aquilo
que já se possui. A falta, desejo ou perda, traz consigo certo alvoroço. A
posse, mesmo de algo importante, lentamente vai caindo na indiferença. Dito já
bastante conhecido “O desejo é tudo, a posse é nada”.
Quando se organiza uma viagem, o projeto, quanto mais
demorado, mais prazeroso. Chegamos a nos imaginar nos lugares a serem
visitados. Fazemos um verdadeiro enxoval, muitas vezes, sem refletir que se
pode adquirir muito do que necessitamos, durante o percurso. A mala de ida, não
raro, vai cheia do que voltará sem uso. Durante a viagem, imprevistos podem
ocorrer. Alguns facilmente contornáveis e outros, nem sempre. Nada disso
importa, pois na volta, só as coisas boas são contabilizadas. As ruins tendem a
ser amenizadas.
A felicidade está num passado relembrado. Num futuro
planejado. Nunca no presente sem glamour.


