quinta-feira, 9 de julho de 2015

FELICIDADE

Publicado no JG-Jornal de Gramado em 23/06/2015

“Não espere por uma crise para descobrir o que é importante em sua vida.”
                                                                                                           Platão

Sandra Freire
Para ser feliz, basta saber coletar corretamente as gotas de felicidade que a vida, diariamente, nos dá. A noção de felicidade talvez seja equivocada, pois só a reconhecemos quando traz em si a promessa de ser eterna, mesmo quando sabemos que talvez não o seja. O que vem aos poucos, entremeado com coisas outras, que nem sempre são boas, costuma passar despercebido. As pequenas “felicidades”, não vêm de traje à rigor.

É comum sentir-se feliz com a realização de um desejo, como um carro novo, uma viagem, um trabalho gratificante e bem gratificado. Poder cuidar bem de si mesmo. Olhar no espelho e ver uma imagem que agrada a si e aos demais. . Não se considera felicidade estar apto a comer sozinho e poder ouvir o barulho da chuva.

Não é comum sentir-se feliz em poder caminhar, pegar o ônibus, ter um trabalho que permita viver com simplicidade e ser saudável a ponto de poder lutar por alcançar meios de realizar os próprios sonhos.

 É fácil ser feliz quando nasce um filho desejado. Difícil, é ser feliz quando ele não corresponde às expectativas que foram postas nele. Queremos um filho para realizar “nossos” desejos. Não somos felizes quando ele (a) realiza seus próprios desejos, quando conflitantes com os nossos.

Geralmente reconhecemos a infelicidade na perda de um ente querido. Só não nos damos conta de que, tê-lo tido não nos fez tão felizes, quanto a sua perda, infelizes. Bastava saber que o ente estava por ali, que ainda vivia. Aquela existência não nos enchia de felicidade. Mas, por que a ausência nos enche de infelicidade? Quem sabe, somos mais felizes na infelicidade? Vê-se a tristeza na face de alguém, mas não se vê alegria com a mesma frequência. Quando não denotamos tristeza, nem alegria, denotamos o quê?

Só experimentamos a alegria num silêncio, quando ele sucede um barulho insuportável. Só damos o devido valor a alguma coisa, por mais simples que seja, quando ela nos falta. Para Platão, não se pode desejar aquilo que já se possui. A falta, desejo ou perda, traz consigo certo alvoroço. A posse, mesmo de algo importante, lentamente vai caindo na indiferença. Dito já bastante conhecido “O desejo é tudo, a posse é nada”.

Quando se organiza uma viagem, o projeto, quanto mais demorado, mais prazeroso. Chegamos a nos imaginar nos lugares a serem visitados. Fazemos um verdadeiro enxoval, muitas vezes, sem refletir que se pode adquirir muito do que necessitamos, durante o percurso. A mala de ida, não raro, vai cheia do que voltará sem uso. Durante a viagem, imprevistos podem ocorrer. Alguns facilmente contornáveis e outros, nem sempre. Nada disso importa, pois na volta, só as coisas boas são contabilizadas. As ruins tendem a ser amenizadas.


A felicidade está num passado relembrado. Num futuro planejado. Nunca no presente sem glamour.

2 comentários:

Unknown disse...

Excelente , gostei muito.Vc falou tudo!

Unknown disse...

Sandra, vc disse tudo mesmo, tá demais!!!!