domingo, 7 de fevereiro de 2016

SAUDADE OU SAUDOSISMO

“O tempo não para! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo...”.
                                                                                              Mario Quintana
Sandra Freire
De um tempo em que as portas das casas podiam ficar abertas. Os bairros abrigavam amigos como se fosse uma única família. As ruas tinham casas, árvores, crianças, bicicletas e alguns carros. Os coletivos eram os bondes e lotações. Só os filmes de terror causavam pesadelos. Gente não tinha medo de gente.

Os cotovelos nas janelas apoiavam a alegria tranquila de uma paz que era natural. Sem alardes. O cheiro de café fresco, passado no coador de pano, atraía o vizinho que despertava da sesta para a segunda parte da jornada de trabalho – a primeira terminava com o almoço em casa. Vez por outra, passava uma condução. No fim da tarde o retorno do trabalho, sem alarido, sempre à mesma hora, a tempo para o jantar.

Nos dias de verão, para fazer a digestão, as mocinhas passeavam pela calçada, os rapazes papeavam nas esquinas, as “titias” batiam as pestanas nas janelas. As vizinhas saíam aos portões para conversar. Os senhores, já de pijama, também participavam.

Triste era não ter namorado. Um ser amado ficar doente ou morrer. Alguém querido ir para longe. Mas a alegria de um casamento, nascimento, baile de formatura, festa junina com toda a vizinhança, conseguia afastar a tristeza.

Os bailes de formatura eram puro glamour. Preenchiam grande parte dos meses que os precediam com os preparativos. A expectativa do evento fazia sonharem acordadas as que traziam no coração o desejo de conhecer seu par. Vestidos longos, rapazes de Summer, orquestra tocando músicas de fazer delirar. Bilhetinhos eram entregues por mãos suadas e guardados dentro de romances.

O que restou desse tempo já foi tachado de quinquilharia, entulho, antiguidade. Mais recentemente, vintage. As peças não mudaram, continuam guardando lembranças de um tempo que embalou desejos, sonhos, segredos, alegrias e tristezas, como hoje! A embalagem é nova, o conteúdo, reciclado. A matéria-prima, a mesma.

Nomes ainda são escritos sangrando a casca de árvores. O mar continua levando declarações de amor e corações desenhados na areia. Olhos jovens e brilhantes decoram feições que serão revistas na memória quando a bruma dos anos e da saudade lhes embaçar a visão. A tralha – para os jovens de então – deverá ser guardada com zelo para manter vivo o que já terá ido. Como hoje.


Há um momento que une a todos, o som dos Beatles. Velhos se tornam jovens e jovens esquecem que eles – os Beatles –, se lhes assemelhavam quando começaram e continuam a encantar após 56 anos de existência.

Um comentário:

Unknown disse...

Lindo Sandra, minha mãe sempre contava essas historias!!!!!!