“A vida é
breve, mas cabe nela muito mais do que somos capazes de viver."
Jose Saramago
Quando se perde alguém, um
espaço se abre e pode, ou não, ser ocupado por outra pessoa. Quem? Detalhe sem
importância. Alguém perdido perde também o caminho de volta. Mesmo que o corpo
volte, virá incompleto. Sentimentos são voláteis e terão se evaporado para
sempre. Como dizem os franceses “Réchauffer, ni café, ni l’amour” (requentado,
nem café, nem amor).
A
conquista é preguiçosa e, aos poucos, vai se tornando displicente. Os mimos
recíprocos vão cedendo à falta de tempo ou de vontade. A intimidade - nada mais corrosivo - vai
ocupando seu lugar sorrateiramente. A cerimônia à mesa, banheiro e adjacências,
se retrai e permite que chinelos, cabelos em desalinho e barulhos desagradáveis
ocupem o lugar das flores, das roupas interessantes, do “clima” na hora de
dormir... Cosméticos e outros adereços ficam esquecidos num canto qualquer.
A
maturidade busca segurança, tranquilidade, mesmice. Lembra-se dos belos anos
vividos, mas não encontra ânimo para resgatar as emoções neles contidas.
Contenta-se com as lembranças. Quer apenas o que pensa que possui. A “paz” de
não esperar. O coração sem sobressaltos. A certeza de não ser notado, nem
querido. O calor, sem aconchego, do leito aquecido apenas pelas cobertas.
Move-se como num baile fantasma, onde todos rodopiam e passam uns através dos
outros, sem se tocarem.
A
razão é prudente. Mostra o caminho da sombra que evita queimaduras. Dosa a água
para que não falte. Avalia a profundidade antes do mergulho. Usa a roupa certa
para cada estação. Não admite pressa, é avessa a mudanças. Garante que amanhã
será igual a hoje e sempre. Não vibra porque não sente. Não morre porque não
vive.
Viver
não exige esforço, persistência, desejo, ansiedade, busca, conquista. Esses são
atributos daquele que quer existir, vibrar, possuir e ser possuído. De quem
enfrenta preconceitos e não teme trocar o certo pelo duvidoso. Dos que preferem
o calor da tempestade à frieza de um dia de sol.
E,
no entanto, a vibração continua lá fora. Para fazer parte dela, é preciso
deixar que a cadeira continue a balançar vazia.
O
desejo é agitado. Tem pressa, sofreguidão. Não tem medo, é inconsequente.
Primeiro faz, depois pensa. Os sentidos se tornam desobedientes. Sons se
confundem. Cheiros remetem ao que se quer. Na boca, o gosto da lembrança. No
tato, a pele de outro. A visão mostra bem próximo o que está longe.
O
romantismo é teimoso. Ressurgirá sempre que a nostalgia incite um coração a bater
forte, despertado por um perfume deixado no ar, um olhar misterioso – cheio de
promessas que só ao endereçado são claras. O que se perdeu pelo caminho deixou
um espaço repleto de carências. E, carências são portas escancaradas e sem
vigias. Nem sempre o que entra é bom.
Mas,
para ganhar é preciso jogar.
Um comentário:
Muito bom, Sandra!! !!!!!!!
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