quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

LEMBRETES

“A vida é breve, mas cabe nela muito mais do que somos capazes de viver."
                                                                        Jose Saramago
Quando se perde alguém, um espaço se abre e pode, ou não, ser ocupado por outra pessoa. Quem? Detalhe sem importância. Alguém perdido perde também o caminho de volta. Mesmo que o corpo volte, virá incompleto. Sentimentos são voláteis e terão se evaporado para sempre. Como dizem os franceses “Réchauffer, ni café, ni l’amour” (requentado, nem café, nem amor).

A conquista é preguiçosa e, aos poucos, vai se tornando displicente. Os mimos recíprocos vão cedendo à falta de tempo ou de vontade.  A intimidade - nada mais corrosivo - vai ocupando seu lugar sorrateiramente. A cerimônia à mesa, banheiro e adjacências, se retrai e permite que chinelos, cabelos em desalinho e barulhos desagradáveis ocupem o lugar das flores, das roupas interessantes, do “clima” na hora de dormir... Cosméticos e outros adereços ficam esquecidos num canto qualquer.

A maturidade busca segurança, tranquilidade, mesmice. Lembra-se dos belos anos vividos, mas não encontra ânimo para resgatar as emoções neles contidas. Contenta-se com as lembranças. Quer apenas o que pensa que possui. A “paz” de não esperar. O coração sem sobressaltos. A certeza de não ser notado, nem querido. O calor, sem aconchego, do leito aquecido apenas pelas cobertas. Move-se como num baile fantasma, onde todos rodopiam e passam uns através dos outros, sem se tocarem.

A razão é prudente. Mostra o caminho da sombra que evita queimaduras. Dosa a água para que não falte. Avalia a profundidade antes do mergulho. Usa a roupa certa para cada estação. Não admite pressa, é avessa a mudanças. Garante que amanhã será igual a hoje e sempre. Não vibra porque não sente. Não morre porque não vive.
Viver não exige esforço, persistência, desejo, ansiedade, busca, conquista. Esses são atributos daquele que quer existir, vibrar, possuir e ser possuído. De quem enfrenta preconceitos e não teme trocar o certo pelo duvidoso. Dos que preferem o calor da tempestade à frieza de um dia de sol.

E, no entanto, a vibração continua lá fora. Para fazer parte dela, é preciso deixar que a cadeira continue a balançar vazia.

O desejo é agitado. Tem pressa, sofreguidão. Não tem medo, é inconsequente. Primeiro faz, depois pensa. Os sentidos se tornam desobedientes. Sons se confundem. Cheiros remetem ao que se quer. Na boca, o gosto da lembrança. No tato, a pele de outro. A visão mostra bem próximo o que está longe.

O romantismo é teimoso. Ressurgirá sempre que a nostalgia incite um coração a bater forte, despertado por um perfume deixado no ar, um olhar misterioso – cheio de promessas que só ao endereçado são claras. O que se perdeu pelo caminho deixou um espaço repleto de carências. E, carências são portas escancaradas e sem vigias. Nem sempre o que entra é bom.
Mas, para ganhar é preciso jogar.



Um comentário:

Unknown disse...

Muito bom, Sandra!! !!!!!!!