sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

A Festa

Publicado no JG Jornal de Gramado em 5/1/2016

“É proibido (...) não compreender que o que a vida te dá, também te tira.”
                                                                                                       Pablo Neruda
Sandra Freire
O início da festa recebe jovens alegres, barulhentos, coloridos. À medida que avança, após alguns drinques, ela chega ao auge. A música alta abafa as conversas. A pista se enche de pessoas que se movimentam no desejo de eternizar aquele momento. Com o passar do tempo, o som vai baixando. O ritmo de balada vai sendo substituído pelo de ícones da geração anterior. As saias vão-se encompridando, as alcinhas desenrolam-se em pequenas mangas. Os jeans e camisetas informais dão lugar às calças e camisas sociais. O entusiasmo cede ao cansaço. Começam as despedidas.

Quando os convivas começam a chegar, trazem junto seus diários ainda vazios. Nos sorrisos que completam a indumentária, a esperança de que a festa seja pura alegria para se transformar num relato prazeroso de ser lido e relido. Um início de festa tem o brilho de o imaculado, o frescor de flores recém-cortadas e a expectativa de um grande evento.
A música ensurdecedora lhes basta. Seus sentidos, – ainda pouco exigentes - satisfeitos com o som e o toque. As lembranças, quase inexistentes, não dão margens aos diálogos sempre alimentados por opiniões conflitantes, formadas somente quando a estrada da vida começa a ser percorrida. Estrada essa ainda virgem.
O suor nos corpos rijos, leva consigo a efervescência do início da festa e começa a esfriar. A agitação vai se transformando em calmaria. Cadeiras são usadas e diálogos travados com base nas experiências adquiridas desde a chegada. Aos poucos, uma luz mais intensa vai deixando a penumbra para trás e mostra os jovens, já não tão jovens. O tom das conversas é bem diferente daquele do início. O pronome de tratamento também. O Sr. (a) vem fazer parte da cena. Quando alguém, cuja juventude está na sombra às suas costas, chama o outro de senhor (a) é uma tentativa de parecer menos velho do que ele - como se a fantasia coubesse em apenas um dos presentes.
Um tom mais sério toma conta do ambiente. Cenhos marcados, - que antes eram lisos - deixam transparecer o tempo passado desde então. Pintas e sulcos vão surgindo nos corpos antes frescos e de uma só cor. Seus olhos traem o cansaço, as alegrias, perdas, tristezas e esperanças mostrados nas já aparentes rugas de expressão. Expressão essa, intraduzível.
No correr da festa, muitos se vão. Alguns de despedem. Outros, nem tiveram tempo para tal. A sala vai se esvaziando. Objetos, palavras, insinuações, olhares, cheiros, saudades ficam no ar.
Quando o último convidado se vai, fecham-se portas e janelas, numa tentativa de impedir que com ele se vá tudo que ali foi vivido. Terá sido a festa curta ou longa demais? Cora Coralina tem a resposta:
NÃO SEI
“... Mas sei que nada do que vivemos tem sentido
Se não tocarmos o coração das pessoas
... Feliz daquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”


Um comentário:

Unknown disse...

👏👏👏 Sandra, muito boa!!!!