sábado, 25 de junho de 2022

EXORCISMO

 

Sandra Freire

É preciso exorcizar nossos demônios ou eles continuarão no controle de nossas vidas. Experiências passadas devem ficar no passado. Quando terminamos de ler um livro, o fechamos e passamos ao seguinte. Por melhor que tenha sido a leitura, em algum momento, podemos nos surpreender com algo melhor ainda.

É fato que os demônios sejam resistentes. Estão em nós como se fossem indissociáveis; ditam regras; escolhem ou rejeitam outras pessoas; fazem comparações e ocupam um lugar que não lhes pertence mais.

Tentamos sufocar nossas carências preenchendo o tempo com mecanismos que só servem para nos distanciar de um convívio social - o que poderia ser bastante saudável. Já estamos atravessando um período de afastamento, que só facilita o equívoco nas escolhas (?) sentimentais. Daí aquela inquietude do eterno “Será que...” E, se não for?”.

E ainda nos surpreendemos com tantos desencontros. Já estamos esquecidos de que os encontros se davam num cruzamento de olhares, um sorriso e o indisfarçável constrangimento que delatava uma atração. Isso é insubstituível.

sábado, 11 de junho de 2022

ESQUECIMENTO

 

Sandra Freire

E, um belo dia eu lembro que esqueci.

Esqueci-me de buscar

Esqueci-me de olhar o quê não há

Esqueci-me de pensar

E de esperar

Esqueci-me de lembrar. E, me fez um grande bem ter esquecido de lembrar que era preciso esquecer.

E

Lembro-me de olhar à volta

Lembro o quanto é bom esquecer...

terça-feira, 10 de maio de 2022

 

AUSENCIA

Não é difícil conviver com uma ausência, mas é quase impossível viver sem ela.

Aquela pessoa que você não vê, mas sabe que existe, pode surgir a qualquer momento.

 É real.

 Talvez sua ausência seja mais benéfica do que sua presença, mas está em algum lugar.

A crueldade de a morte consiste em nos privar até de a ausência. É o nada.

 É a certeza de o nunca mais.

 É como se fossemos proibidos de sonhar.

 Pode-se sonhar com uma criação, com alguém distante, com alguém que se quer ter,

 mas não com alguém que se foi, porque não existe mais.

Quando se perde alguém importante, é preciso reaprender a viver. É preciso querer.

 Tudo e todos à volta perdem a importância. Como repor alguém?

 Qual o remédio para a dor de a perda? O tempo? E o que vai restar de nós após esse tempo?

 Quanto tempo?

A ferida vai fechar. Mas a cicatriz vai desaparecer?


terça-feira, 7 de dezembro de 2021

NADA MAIS BELO

 

NADA MAIS BELO

Que a experiência não vivida

Que a flor que não abriu

Que a música interrompida

Que a festa perdida

Que o lugar não visto

Que o sonho não realizado

Que o livro não escrito

Que as palavras não ditas

NADA MAIS TRISTE

Quando não há mais o que sonhar

Que o quê se foi logo ao chegar

Que a morte da flor logo após florescer

Que a musica não esquecida

Que a festa quando finda

Que o lugar que não existe mais

Que o livro em branco

Por não ter o quê ser escrito

A VIDA

 

A VIDA

Sandra Freire

É fato que a vida não tem mesmo imaginação. Ela se repete o tempo todo. Mais sem imaginação do que a vida são as pessoas. Isso, sim, é surpreendente. Mesmo quando acontece tudo igual, as pessoas esperam que o final seja diferente.

Como?

Se todos os ingredientes são para um bolo de laranja, o produto final será bolo de laranja!!!

Por que então esperar que seja torta de chocolate?

No fim, o X da questão é a vaidade de cada um. É o comigo vai ser diferente. São as juras de um com as lágrimas de outro. Quando ainda jovens, o filho do conserta casamento- tem tantos e há tanto que até já deram netos, bisnetos... -; os desejos de um realizados pelo outro (pecador). Com ou sem mais um filho, a tragédia se repete.

O homem é uma eterna criança. Está sempre em busca de liberdade. Quando pequeno tenta se libertar da mãe. Afasta-se dela com passos inseguros, corre, cai e volta correndo em busca de proteção. Quando adulto, substitui a mãe pela mulher, mas continua a eterna busca. Mas, se estamos condenados a ser livres (Sartre), por que não aprendemos ainda a lidar com a liberdade? Embora haja conflito entre liberdade e proteção – proteção significa sujeição, que é o oposto de liberdade –, por que o ser humano necessita dos dois?

Será nisso que os relacionamentos abertos apostam? Haverá liberdade com proteção; idas e vindas sem danos; coração que se divide e se restaura e...?

sábado, 24 de julho de 2021

 

MALDITA MATURIDADE

Sandra Freire e outros

“Aprendi que não importa o quanto eu me importe; algumas pessoas simplesmente não se importam”.

Aprendi que falar pode aliviar dores emocionais.

Que verdadeiras amizades continuam a crescer, mesmo a longas distâncias.

(...) e que vc pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida.

Aprendi que existem pessoas que amam a gente, mas simplesmente não sabem como demonstrar isso. Amar é fácil, mesmo quando não se quer; reconhecer, aceitar e demonstrar...

(...) que preciso controlar meus pensamentos, ou ser controlado por eles.

(...) que quando estou com raiva, tenho o direito de estar. Mas isto não me dá o direito de ser cruel.

Que quando duas pessoas discutem, não significa que elas se odeiem; e quando duas pessoas não discutem não significa que elas se amem.

Que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém; algumas vezes você tem que aprender a perdoar a si mesmo.

(...) beijos não são contratos e presentes não são promessas.

(...) que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança.

(...) que o tempo não é algo que possa voltar atrás.

Cada segundo é tempo para mudar tudo, para sempre.

(...) não importa em quantos pedaços seu coração foi partido; o mundo não vai parar para que você o conserte.

“Aprendi que por mais que eu queira proteger os meus filhos, eles vão se machucar e eu também”. Isso faz parte da vida.

“Aprendi que as circunstâncias de minha infância são responsáveis pelo que eu sou, mas não pelas escolhas que eu faço quando adulto.”

(...) que tenho de plantar meu jardim e decorar minh’alma, ao invés de esperar que alguém me traga flores.

As pessoas às vezes machucam as outras pelo simples fato de estarem machucadas.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

 

FELIZ ANO NOVO

Enquanto não atravessarmos na dor de nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades. Para viver a dois, antes, é necessário ser um. Fernando Pessoa

Sandra Freire
Quando tudo é perfeito, procuramos a falha. A perfeição incomoda. Algo como a roupa maravilhosa que não é confortável.

Notícia boa não prende ninguém na cadeira. Tragédia dá uma audiência estrondosa.

Ao final de cada ano, as reportagens pontuam mais os piores acontecimentos, como se quase nada de bom tivesse acontecido.

Manter a audiência é preciso.

Mas, porque não cultuamos os bons acontecimentos em nossas vidas? Não precisamos de audiência!

Ou?

O encontro de um novo amigo; o superar algo que não daria mesmo certo; ver à frente uma página em branco para escrever uma nova história. Ou nada!

Entender enfim, que deixar a página em branco, sem mágoas ou expectativas, pode significar o início de uma grande história.