Publicado no JG Jornal de Gramado em 18/12/2016
“Se
quiser por à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder”
Abraham Lincoln
Sandra
Freire
Dia 24 de dezembro.
Quase meia-noite. Olhos se voltam para o céu. Mas, o céu que lá está seria
descrito de modos diversos, um para cada ser que o visse naquele momento.
Pessoas e animais compartilham um espaço amplo o suficiente para abrigar todos
os seus desejos. Aos poucos vai se delineando uma figura vestida de vermelho,
num trenó puxado por renas e repleto de caixas. No seu suave balé pelo espaço,
as caixas vão caindo, uma para cada um. E, quando ele começa a se afastar deixa
pairando no ar uma nuvem branca, que simboliza o único presente que a todos
parece inalcançável, PAZ.
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| Imagem do Google |
Um presente que não tem
preço. Um embrulho com uma caixa vazia pode trazer muito mais do que se
desejaria ganhar. Nela cabe a alegria da cura de uma doença, o reencontro com
seres amados, o abraço afetuoso dos que já se foram, o amor pelo próximo,
oportunidade aos que desejam uma vida melhor. Felicidade! Venha como vier, mas
que traduza o direito de receber tão somente o prometido.
Que, pessoas nas quais
foram depositadas esperanças pudessem sentir que a maioria dos presentes tão
ansiados por tantos, foram roubados por si. E, por isso, incontáveis famílias
ficarão nesse dia com suas mesas e corações tão vazios quanto suas caixas.
Que, ao olharem para
seus familiares bem vestidos, alimentados, alegres, essa imagem fosse substituída pela de outros entristecidos, famintos e desesperançados que
acreditaram serem vistos além do seu voto.
Que, ao abrirem suas
caixas repletas de objetos de desejos de última geração – os quais serão
substituídos ou esquecidos num canto qualquer -, nelas não encontrassem prazer,
mas compaixão pelos animais e pessoas que poderiam ter um destino melhor, caso
sua ganância não os levasse a usurpá-los, esquecendo-se de que não terão tempo
de vida suficiente para usufruir o pouco de tantos, que somado, se transforma
em muito para poucos de mãos bem cuidadas, corações pétreos e consciências
vazias.
Que, ao comerem e
beberem mais que o necessário, pudessem ver através de seus muros bem guardados
os que bem pouco ou nada têm a comemorar.
Que, ao se recolherem
aos seus aposentos de lençóis caros, pudessem ver refletidos os rostos dos que
estão ao relento, sabendo que seus destinos escorrem como lama em suas mãos.
Que, a dor dos que não
conseguem alívio para seus males, sendo-lhes negado absolutamente tudo o que
consta na Declaração Universal dos Direitos Humanos que, no dia 10 de dezembro,
completou 67anos, possa conscientizá-los de que só doença e morte são altamente
democratas.
Que, o verdadeiro
presente aos que ignoram seus iguais, seja a certeza de que a adversidade a
todos atinge. E, ter PODER sem conseguir comprar a saúde e/ou a vida para si ou
um ente querido, não é PODER, é ILUSÃO.
A todos os outros, uma nova
chance para aprender com os erros do passado e não mais voltar a cometê-los.




