“Vista
pelos jovens, a vida é um futuro infinitamente longo; vista pelos velhos, um
passado muito breve.”
Arthur Schopenhauer
Arthur Schopenhauer
Sandra Freire
A conexão entre as
gerações nunca foi um lago de águas plácidas. Apesar de as lembranças remotas
serem as mais fiéis em nossa memória, a tendência é considerar os fatos atuais mais
contundentes. Algo parecido com a dor. A que passou é sempre mais branda do que
a atual. As gerações vão se sucedendo como as imagens num espelho. Enquanto nos
vamos afastando dele, -e ficando cada vez menores- nossos filhos vão se
aproximando e ficando maiores.
A grande diferença é
que, antes éramos os protagonistas e agora, coadjuvantes.
Nós, protagonistas,
nossos pais, coadjuvantes. Na pré-adolescência, portas trancadas, segredos
trocados com os amigos, sensações estranhas, descobertas. Curiosidade.
Na adolescência e
início da fase adulta, “descobrimos” que sabemos muito mais do que nossos pais.
O tempo deles não estava com nada. Nem dá para discutir!
Nós adultos, eles
velhinhos. Temos de estar atentos senão... Fazem bobagens, é claro. Assumem
compromissos que não poderão cumprir, pagam mais pelo que não vale, vão a
lugares que podem ser perigosos, fazem amizade com pessoas que não têm
referências e nem sabem se são confiáveis. Preocupam-se muito com os filhos,
mas não percebem o quanto são frágeis.
Nosso(s) filhos(s)
chegando. Seres indefesos. Precisam de assistência o tempo todo. Não
sobreviveriam sem nós. É de nossa responsabilidade prover uma infância
saudável, carinho, compreensão, companheirismo etc. Quando pequenos, somos o
modelo ideal. Querem ser iguais a nós, seus heróis.
Na adolescência, ficam
um tanto distantes de nós. As
confidências vão rareando. Preferem mais a companhia dos amigos do que a nossa.
Nossos gostos vão se distanciando, mesmo que nos esforcemos por partilhar seus
filmes, músicas etc.
Agora, adultos, têm
seus próprios interesses. Sua programação não nos inclui. Vigiam-nos
veladamente, como se não percebêssemos.
Aí, chegam os netos,
filhos de nossos filhos... e a história, mais uma vez, se repete.
Segundo o psiquiatra
Flavio Gikovate, o adolescente e o velho passam por um problema bastante
semelhante. Os adolescentes, com o desenvolvimento do corpo que não é
acompanhado pela cabeça, que permanece infantil mais tempo. O velho, que mantém
a cabeça jovem enquanto o corpo envelhece. É comum se ouvir “Não me sinto com a
idade que tenho”. Não sente, mas vê.
Os dois têm razões mais do que suficientes
para sofrer.
É fato que, quando o
jovem alcançar a idade dos pais vai entender bem o que eles estão passando
agora.
Acontece que seus
filhos só os entenderão quando chegarem à idade deles agora.
Apesar de ser
previsível, pois se repete, repete e repete, o final é sempre surpreendente
para os atores. Quando o filme termina, as luzes se acendem. Mas logo se apagam
e começa uma nova seção.


